sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A menina que podia ser eu

 

"Minha  mãe morreu logo que eu nasci." Essa foi a primeira frase dela que me deu um aperto aqui dentro. Depois, vieram outras. "Minha avó ia me criar, mas ela morreu quando eu tinha quatro anos." "Meu pai nunca ligou para mim." A menina que eu conheci hoje tem 17 anos, é linda, tem um sorriso encantador e sonha em ser jornalista. Podia ser eu com a mesma idade e o mesmo sonho. Aos 17 eu estava no esquema do Eduardo - escola, cinema, clube e televisão. E tinha o futuro pela frente. Eu podia sonhar. Aos 17, eu passava noites em claro batendo perna e bebendo pela Savassi ou me acabando no Pop Rock. Aos 17, ela não dorme há onze dias porque tem um bebê nos braços. 

Aos 17, quando ainda não aprendeu sequer a ser ela mesma, ela tem que aprender a ser mãe. Ainda menina, ela tem que dar conta de uma rotina que eu, com quase 40, família estruturada, emprego fixo e férias na praia, muitas vezes, não consigo. A menina que podia ser eu e vai ter que guardar os sonhos no bolso para conseguir sustento para o pequeno anjo que traz nos braços, me disse que o meu presente foi o único novo que o bebê ganhou. Ela me disse isso e eu senti um certo constrangimento em pensar nas pilhas de sacolas e caixas que abasteceram e abastecem os armários das minhas filhas. Uma vergonha de mim, que nem me julgo das mães mais exageradas e consumistas, mas que dou roupas de bebê para vestir bonecas. E que tirei do guarda-roupas das meninas peças que, por excesso de opções, foram usadas uma ou duas vezes  e já não servem mais.  

Sempre que saio da minha bolha e me deparo com o mundo real, me sinto mal comigo mesma por considerar um problema não ter tempo de cortar o cabelo antes de viajar ou por gastar energia pensando se é melhor adoçar o suco da bebê com mel orgânico ou açúcar demenara. O choque de realidade explodiu em fartas lágrimas que não mudarão em nada o curso das coisas, quando imaginei a avalanche de julgamentos a que as duas crianças, mãe e filho, estarão expostos. 

Cada vez que me me coloco diante de uma história tão triste, me pergunto como é possível defender a tese da meritocracia e ignorar todo o contexto histórico e social que cerca o "sucesso" de alguns e o "fracasso" de outros.  Acredito que quem levanta a bandeira da meritocracia jamais tenha convivido, conversado ou prestado atenção em alguém que esteja fora de seu círculo. 

Entre meus amigos e parentes praticamente todos tivemos infância protegida, educação de qualidade, vacinação em dia, um milhão de possibilidades. Hoje, a imensa maioria de nós tem, no mínimo,  curso superior como formação, e o kit classe média completo: casa, carro, comida farta, plano de saúde, cama quentinha, roupa na moda, viagens, diarista ou empregada, filhos em boas escolas, que praticam atividades físicas, aprendem idiomas e celebram seus aniversários. Nossos filhos, provavelmente, conquistarão mais do que nós. Não pode ser coincidência. Não somos todos seres extraordinários, que lutamos bravamente por tudo que queremos e fizemos por merecer cada pedacinho de fruta fresca ou cada grão de farinha láctea que comemos desde a primeira infância. O nosso mérito foi e continua sendo aproveitar as oportunidades que a vida nos deu. Fizemos nossa parte estudando, acordando cedo, sendo responsáveis...mas, e se a vida não tivesse nos presenteado com as chances, o que seria de nós? 

Se eu tivesse a mesma história de vida da menina que eu conheci hoje, eu, que nunca trabalhei um dia sequer com algo que não fosse aquilo que escolhi, estaria aqui escrevendo essas linhas e refletindo sobre a vida ou estaria exausta depois de pegar dois ou três ônibus para cumprir expediente em um subemprego qualquer, cozinhar, faxinar, sobreviver com um salário mínimo e ainda ser acusada de não me esforçar o suficiente para melhorar? 

Se ela tivesse a mesma história de vida que eu, estaria, agora, esperando o bebê fazer três meses para tentar uma vaga na Umei e poder procurar um emprego para sustentá-lo? Teria ela um bebê que chegou ao mundo sem uma roupinha nova ou um quartinho bem decorado para esperá-lo? Ou estaria ela em um bom colégio ou cursinho se dedicando a passar no Enem e começar a construir seu sonho de ser jornalista? 

A menina que eu conheci hoje me fez pensar, me fez chorar, me fez agradecer, me fez colocar o (meu) mundo em perspectiva. A menina que eu conheci hoje me fez desejar que o mundo fosse melhor e mais justo. À menina que eu conheci hoje, eu desejo que tenha forças para vencer os obstáculos que a vida colocou no caminho dela e, generosamente, tirou do meu.

Fotos: Sheyla Pinheiro http://www.sheylapinheiro.com/

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A primeira Copa da memória

A primeira Copa do Mundo da qual eu tenho lembrança é a de 1986, quando eu tinha nove anos. Do futebol mesmo, eu só lembro do pênalti que o Zico perdeu, o que me fez, por muito tempo detestar o Galinho. Lembro em detalhes: onde eu estava sentada na sala (no chão, para variar), da lata de biscoitos que eu afastei para não derrubar quando saísse pulando para comemorar o gol, da tristeza que veio em seguida.

Lembro da fila da escola no dia seguinte, quando o assunto era o jogo. Um colega disse que torceria para um encontro da França, nosso algoz, com a Argentina, para o Maradona mostrar ao Platini quem era melhor. Um outro tinha uma teoria meio maluca de que, uma vez derrotado o Brasil, a França passou a ocupar o lugar que seria nosso, portanto, era o Brasil de azul e a gente teria que torcer pelos franceses.

Fora o futebol, lembro do clima. Da animação em dias de jogos e nos outros todos. De casa cheia em dias de jogo. Dos bolões na vizinhança. De todos nós, primos e vizinhos, com a camisa do Arakén (Quem? O showman!) Da gelatina verde e amarela da minha mãe. Da festa depois de cada partida. Da alegria que era ver a seleção em campo e de como eram especiais os dias de Copa do Mundo.

Tomando como base a dinâmica da minha memória, a primeira Copa que ficará na cabeça da Beatriz será - ou seria? - a de 2018, quando ela vai ter dez anos. A Copa que corre o risco de não ser . A primeira que pode ser disputada sem o Brasil. Ou, mesmo que a seleção se classifique aos trancos e barrancos, numa repescagem dramática contra algum time da Oceania, a Copa para a qual a gente não vai ligar, que a gente vai assistir meio que por obrigação, envergonhados por antecipação, no aguardo do próximo vexame.

Pior, se a memória dela for melhor do que a minha, ela se lembrará da Copa que viu aos seis anos. "Alemanha: "Alemanha? Ah, não. 7x1. Nunca vou esquecer daquele dia", é o que ela fala toda vez que ouve qualquer coisa relacionada ao país.

sábado, 4 de junho de 2016

A fábula dos meus anjinhos

Dois anjinhos viviam felizes no céu até que Deus resolveu que ia mandar um para a Terra. Resolveram entre si quem era o mais preparado, se deram um "até mais" e separaram-se. O outro continuou no céu e resistiu por bastante tempo às investidas para sair de lá. Até que um dia foi chamado pelo outro anjinho e não resistiu. Achou que já era a hora e desceu também. Chegou chorando, dormiu e acordou no colo do anjinho do qual tinha se separado há sete anos. O anjinho bebê se mexeu e o maior disse: "gente, socorro, ela mexe". Na verdade, queria dizer "está tudo bem, você chegou e estamos juntas de novo". Gosto de pensar que foi assim. 


sexta-feira, 27 de maio de 2016

Eu não combato a cultura do estupro (uma constatação envergonhada)

Eu não combato a cultura do estupro. Não é uma afirmação orgulhosa, mas uma constatação envergonhada. É que eu não viro a cara para quem diz que o pai de menina deixou de ser consumidor para virar fornecedor. Eu não rompo relações com quem fala que o pai vai ter trabalho porque a filha é muito bonita. Eu não me levanto e faço um discurso indignado quando uma pessoa enche a boca para contar quantas namoradas o menino de três anos tem. Eu não peço explicações a quem planeja ter uma filha freira ou que só vai namorar depois dos 30 anos, Eu escuto calada alguém dividir as mulheres entre "para namorar" e "para casar".

Eu não verbalizo o "babaca" que me vem à cabeça quando alguém se refere ao casamento como uma forca para o homem e a máxima realização da mulher. Eu não rebato ponto por ponto o "mas também" que ouço em comentários sobre os abusos do cotidiano. Eu apenas sinto uma pena silenciosa quando alguém enumera "ajuda em casa" entre as vantagens de um marido. Eu xingo as pessoas de filho da puta. Eu me limito a dar um sorriso amarelo quando ouço uma piada ou comentário machista.

Eu não dou uma resposta à altura a quem diz "já pode casar" para uma mulher que sabe cozinhar. Eu não exponho ao merecido ridículo quem pergunta se o homem deixa a mulher trabalhar ou ter amigas. Eu não defendo a mulher que recebe o rótulo de encalhada ou de periguete. Eu não contesto quem afirma que uma mulher bem sucedida é sapatão ou deu para alguém para chegar lá. Eu engulo a raiva quando ouço discursos sobre a necessidade de a mulher ter um corpo bonito ou caprichar no visual para arrumar ou segurar marido ou namorado. Eu não excluo das redes sociais e da vida quem consegue colocar um "mas" depois de qualquer notícia de violência ou abuso.

Eu me calo porque tenho medo. Porque sei que se abrir a boca vou ser a mal educada, a mal amada, a mal comida, a que não tem senso de humor. A que arruma confusão por qualquer coisa. A feminista chata, a louca, a que está de TPM, a descontrolada. A espanta bolinho, a desagradável. A errada, a culpada. Em minha defesa, posso alegar que também sou vítima. Mas eu sei que a culpa também é um pouco minha.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Em busca do sono perdido

Nunca tive problemas para dormir. Nem em finais de gravidez tive dificuldades para encontrar a posição ideal para um cochilo. Para mim, qualquer posição é suficientemente boa para fechar os olhinhos e me encontrar com Morfeu. Meu relógio biológico não é daqueles que se acostumam a despertar cedo, por mais que o corpo seja obrigado a fazê-lo regularmente. Acordar antes do sol, só com despertador e (algumas) "soneca".

Minhas meninas sempre foram boas para dormir e passaram a frequentar o berço pela noite toda logo depois que acabaram os terríveis meses de cólica. Mas, nas últimas semanas, a caçula entrou em "modo canguru" e decidiu que só dorme no meu colo, o que significa que apenas ela dorme, eu só passo a noite em claro cuidando para que ela não caia. Ao retornar ao estado zumbi, tenho tido ideias mibarolantes para repor o sono que não durmo à noite. 

Algumas delas:

Arrumar um médico camarada que me dê um pedido para um exame do sono. Aquele que a gente passa a noite em uma clínica com fiozinhos monitorando a atividade cerebral. Dormir por recomendação médica, sem questionamentos. A máquina ia captar ondas e mais ondas de felicidade ao longo de horas bem dormidas;


Para num motel para desfrutar de duas horas de cama e silêncio; 

Trancar a porta do banheiro e me enconstar em algum canto para dormir até que dessem pela minha falta (dois minutos, provavelmente); 

Falar que ia trabalhar acompanhando a votação do impeachment no Senado até o dia amanhecer e passar a noite dentro do carro, dormindo na garagem; 

Ter uma folga secreta depois do plantão e dormir a tarde inteira, depois de despachar as meninas cada uma para seu destino habitual;    

Forjar meu próprio sequestro. 

Embora nenhuma dessas ideias tenha me parecido completamente estapafúrdia, não coloquei nenhuma delas em prática, a não ser a da folga secreta, que não deu muito certo porque esqueci de desligar o celular e ele tocou; depois, desliguei, mas o fixo tocou; e tocaram o interfone também. Era um complô do mundo contra o meu sono. Sigo com as olheiras quase encontrando com o queixo, e com a certeza de que falta de sono pode fazer mal para o humor, para o raciocínio, para o reflexo, para a vida social, para a produtividade, para a memória, mas até que faz bem à imaginação e ativa a criatividade. 









sexta-feira, 29 de abril de 2016

A República das Anas

Somos 3.089.858 Anas espalhadas pelo território nacional, ou 1,69% da população brasileira, é o que me conta o IBGE. Desde 1930, o uso do nome só cresce e quase um terço das Anas viventes nasceu depois dos anos 2000. Uma nova geração de Anas garantida. Se fôssemos um país, poderíamos instalar a República das Anas no Uruguai, onde, atualmente, vivem 3,4 milhões de pessoas sob as mais diversas denominações. Para zerar a diferença, seria só convocar as Annas, Hanas, Hannas e outras quase Anas que circulam por aí.

Somos o terceiro nome mais usado no Brasil, o segundo feminino, atrás apenas de Maria. É certo que nós, Anas e Marias, temos a vantagem de não competir sozinhas.  Normalmente, nosso nome vem acompanhado de um segundo, gerando infinitas variações. Diante da enorme gama de possibilidades das Anas, me deparei com poucas Anas Paulas na vida. Uma delas, minha primeira melhor amiga que, exceção à regra, hoje prefere ser chamada de Paula.

É que, ao contrário das Marias que costumam se apresentar apenas pelo complemento, nós, as Anas, usamos os dois nomes como se fossem um terceiro. "Ana Paula" não são dois nomes, é praticamente Ana-Paula, substantivo composto, mesmo para os que me chamam apenas de Ana (ou suas variações Aninha para um monte de gente e Aníssima para a Cris) e para os poucos que optam pelo Paulinha (só a minha avó e a Edna) ou pelo Papaula, caso dos meus primos Ricardo, Cristina e Gustavo.

Daqui, cercada da minha multidão de xarás, fico imaginando como deve ser a vida do meu amigo Scharmack, que além de não encontrar companhia para a alcunha de batismo, não achou nem a ele mesmo na lista do IBGE. O lado bom deve ser criar e-mails e logins com o próprio nome onde quer que seja. O lado ruim deve ser soletrar o nome para fazer cada cadastro. E, mesmo com histórico de cadastros, e-mails, certidão de nascimento, carteira de identidade e tudo mais, o IBGE, na maior cara de pau do mundo, disse a ele que existem zero Scharmacks entre o Oiaopque o Chuí.  Mas, se não consta nem nas estatísticas oficiais, mas o conhecemos desde a infância, só pode ser um caso de amigo imaginário que trouxemos para a vida adulta, como bem definiu o Kleber.

Quem quiser saber mais sobre o próprio nome é só clicar aqui.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Memórias de amor

Raramente vou à missa, mas no último fim de semana eu fui. E me surpreendi com um sermão muito bonito do padre, que falava sobre a vida em modo automático. Não me lembro exatamente as palavras que ele usou, mas vou explicar usando as minhas, o que ficou para mim do que ele falou.

Ele disse sobre a gente ir vivendo sem perceber o que está vivendo, sem dar às pessoas a atenção e a importância que elas merecem, sem demonstrar o que sentimos. Vamos, simplesmente, cumprindo as obrigações do dia-a-dia enquanto viramos o calendário. De repente, não sabemos mais o porquê dividimos a vida com aquelas pessoas, porquê elas são importantes.



Não cultivamos as nossas memórias de amor, as lembranças que renovam nossos sentimentos, que nos mostram porquê escolhemos estar ao lado daquelas pessoas, sejam amigos, familiares ou o/a companheiro/a amoroso/a. "As suas melhores lembranças, as que te fazem sorrir. Veja quem está nelas. É ao lado daquelas pessoas que você tem que ficar", disse o padre.

Achei muito lindo e muito verdadeiro. Lembrar renova o amor, renova o bom humor, renova a vida.

Eu tenho o hábito de tentar lembrar o que eu senti em alguma ocasião, em algum lugar ou com alguma pessoa. Os escritos me ajudam muito nisso, me fazem reviver o encantamento, a angústia, a ansiedade, o riso fácil, as lágrimas, conforme o caso. Ajudam a entender o motivo de alguma decisão e a rever outras.

Casa um deve ter seus mecanismos pessoais. Olhar fotos, ouvir uma música marcante, ler um poema que tenha um significado pessoal, abraçar, olhar no olho, conversar, fazer carinho, prestar atenção e uma lista extensa de outras ações que despertam os sentimentos já meio esquecidos. Memórias de amor alimentam o amor.

*imagem retirada da internet

sábado, 9 de abril de 2016

Querida, deletei o Face (do celular)

O espaço na memória do celular era pouco e o tempo livre, menor ainda. O vilão era o mesmo: o Facebook no celular. Era por ele que escorriam meus raros minutos livres. Então, tomei coragem e parti para a minha terceira tentativa de me livrar da rede social mobile (as outras duas resultaram em fracassos retumbantes e não duraram uma semana). Dessa vez, foi antes do Carnaval. Mais de dois meses depois, acho que já posso dizer que consegui. Deletei o Face do celular e recomendo. É libertador. 

Ninguém precisa checar curtidas e comentários em tempo real, nem acompanhar compartilhamentos minuto a minuto. Sem a rede nas mãos, acabo postando menos. Não compensa abrir o PC para escrever duas frases. Se for foto, tem que enviar por e-mail, baixar no computador, subir pro Face. Dá muito trabalho. Tem que valer muito a pena. A maioria não vale. Sem contar os posts que só valem no momento que acontecem. Não vou escrever "gol do Galo" três horas depois do jogo. Passou. Não perdi nada em não postar. 


Claro que estou ignorando propositalmente a opção de entrar no Face pelo navegador do celular. Se fosse para fazer isso, não faria sentido. 

Até agora, deixei de ler alguns (muitos) posts, descobri que acumular 15 ou 20 notificações não mata ninguém, deixei de expressar algumas opiniões totalmente dispensáveis para a humanidade, esqueci alguns aniversários (desculpem, amiguinhos); ganhei mais tempo em casa, prestei mais atenção nas pessoas, andei menos com a cabeça baixa e tenho algum tempo para ler. A balança está pendendo para o lado bom. Estou juntando forças para começar a desligar a rede de dados em algumas ocasiões e me libertar também da escravidão que o WhatsApp se torna de vez em quando (em sempre?). 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Sanatório geral

Há meses o Brasil não tem governo.
Jamais saberemos se o PT instalou mesmo o maior esquema de corrupção que já se viu no país. Nenhum governo anterior nunca foi investigado tão a fundo. Aliás, nem no raso.
Ainda bem que começamos a levantar os tapetes. Que seja a regra daqui para a frente e se estenda aos estados, aos municípios e ao legislativo. A política brasileira é democraticamente rasteira.
Há meses, o governo sangra em praça pública e, até agora, não existe nenhum projeto que vá além do "Fora PT".
Numa manobra anti-ética, o governo coloca Lula no Ministério. Um juiz que foi ao protesto e pede no Facebook a saída da presidente Dilma para que o dólar caia, suspende a nomeação.
O juiz Sérgio Moro se vale de grampos ilegais para manter sua condição de herói nacional (que Dilma queria proteger Lula, ficou claro no seu discurso. Não era preciso grampos. Acredito que um juiz tem que ser o primeiro a cumprir a lei, só isso.)
A irmã da Gisele Bündchen apareceu na história (é a juíza que negou a suspensão da posse do Lula).
Maluf, Bolsonaro e Feliciano estão no time que vai discutir o impeachment e, em consequência, o futuro do Brasil. O comando da comissão ficou com os aliados do Cunha.
Lula levou onze containers quando saiu do Planalto. Fernando Henrique levou nove. Houve ou haverá levantamento patrimonial em todos eles? Nos do Collor? Sarney? Do falecido Itamar?
É alentador lembrar que temos banqueiros, doleiros, empreiteiros e políticos do primeiro escalão na cadeia.
Quando começarão as investigações para descobrir o que há de verdade nas delações sobre propina em Furnas e conta secreta em Lichtenstein do senador Aécio Neves?
Espalhar informação sem fonte confiável pelas redes sociais ou pelo WhatsApp só porque fortalece seu ponto de vista, seja ele qual for, não ajuda em nada. O noticiário já é fantástico demais para ter concorrência.
Espalhar opinião em qualquer meio está liberado, desde que não ofenda o coleguinha. Parece que é isso que diz a Constituição, embora as redes, às vezes, discordem.
Quando responderão se o contrato de Fernando Henrique com uma concessionária pública para enviar recursos ao exterior era legal? (O fato de a beneficiária ser a amante não torna o caso de interesse privado, na minha opinião). Algum dia saberemos se a emenda da reeleição foi comprada e se houve corrupção e desvio na venda da Vale e outras estatais? (O fato de as privatizações serem necessárias não invalida as suspeitas, também na minha opinião).
Para o Brasil ser viável, além da corrupção, em algum momento teremos que enfrentar também os privilégios. Não é razoável pagar auxílio qualquer coisa para juízes, promotores, deputados, senadores e por aí vai.
Quando o PT sair do governo (acredito que é só uma questão de tempo e de saber o meio, se impeachment, renúncia ou cassação) vamos manter a mobilização contra a corrupção?
Convicções políticas à parte, Chico Buarque continua sendo o maior compositor que a música popular brasileira produziu.
Quais são as mudanças necessárias no sistema político para reduzir as brechas para negociatas, mamatas, jeitinhos, o histórico toma-lá-dá-cá? Quem terá a coragem e a decência de fazê-las?
Não quero devolver o Brasil para os índios. Não quero o Brasil de volta, porque o modelo anterior não me serve. Quero um Brasil melhor. Não tenho ideia de como chegar lá. Tenho apenas questionamentos e pensamentos soltos sobre esse sanatório geral que tomou conta do país.
O Brasil, já sabia Tom Jobim, não é para principiantes.

sábado, 12 de março de 2016

Cápsulas de tempo

Tempo...queria ganhar em cápsulas. Pequenos pacotes para serem usados em doses terapêuticas. Cinco minutos para fechar os olhos e sentir a música; dez minutos para ver o pôr do sol; quinze minutos para tomar banho com a porta do banheiro trancada; meia hora para sentir o gosto do almoço e comer ainda quentinho; cinquenta minutos para ler ou escrever; pouco mais de 90 minutos para prestar atenção no jogo de futebol, da escalação àquela hora que o jogador agradece o apoio dessa torcida maravilhosa; duas horas para jogar conversa fora na mesa do bar....

Doses extras de tempo com uso definido, sem direito a desvio de função. Nada de usar a meia hora a mais para catar brinquedos no chão, nem os 90 minutos do jogo para corrigir o dever de casa. Sem chance de usar os dez minutos que estão sobrando para ir ali no banco pagar umas contas. Nem pensar em adiantar o almoço nas duas horas que seriam do bar. As cápsulas de tempo seriam minhas. Só minhas. Igual àquele chocolate que a gente esconde na bolsa e come na rua para não ter que dividir com ninguém.